A concepção de arte na modernidade: uma tensão entre passado e futuro
Por Delzimar da Costa Lima

Um dos grandes problemas modernos é descortinar o que é arte. Para que serve? A
arte influencia e, portanto, educa? Qual é, afinal, o seu impacto? Deve-se aceitá-la,
irrefletidamente, sem consequências? A liberdade de expressão envolve a arte ou essa é mais
do que expressão, posto que envolve mensagem, emoção e dor?
Esse texto propõe um repensar sobre arte, um repensar necessário sobre a dicotomia
passado – futuro. Para Hannah Arendt (2011, p. 10), a lacuna entre o passado e o futuro expõe
a crise profunda do mundo contemporâneo, “que se traduz no campo intelectual pelo
esfacelamento da tradição. ” É por esse caminho que se deseja trilhar: ver o passado para se
reconhecer, no presente e no futuro, o que, de fato, é arte e se ela serve aos seus objetivos, se
é que eles existem.
Desvendando o passado, analisem-se os grandes clássicos, como Aristóteles, para
quem, diferentemente de Platão, a arte é mais do que mera imitação. A mímesis é, na
verdade, para o primeiro, “o lugar da semelhança e da verossimilhança” (SANTORO, 2017,
p.75) e, como tal, é o lugar da representação como a linguagem verbal o é. Em a Poética,
Aristóteles considera as belas artes cuja utilidade está na sua própria natureza e enche as
mentes de emoção e fluidez. Sua contemplação aproxima-se do divino e, dessa forma,
distingue o homem como nobre. A beleza conduz à nobreza inclusive de caráter e ratifica a
genialidade do artista.
Em a Política (apud SANTORO, 2017, p. 79), Aristóteles analisa a arte a partir de dois
pontos: a didática e a catártica ou orgiástica. Como didática, a arte ensina os valores que, entre
os gregos, eram “ a coragem de Aquiles, a astúcia de Ulisses, a dignidade de Ifigênia” (Id., p.
80). Por esse pensamento, cria-se que a arte evocava a nobreza no coração dos homens, ou
seja, aquilo que se desejava ser. Pela tragédia, saía-se motivado para ações elevadas e pela
comédia, envergonhados. Para Santoro (Id. ib.) “motivação e reconhecimento são funções
didáticas …”. Da arte, sem dúvida. Eis o princípio político da arte: a educação dos homens.
Do ponto de vista catártico ou orgiástico, a arte é associada aos “delírios bacantes”,
com a finalidade de purificadores ou purgadores. Segundo Santoro (2017, p. 84),

O aspecto catártico da clínica psicanalítica, na teoria de Freud, foi elaborado a partir de um
diálogo intenso com um filólogo alemão chamado Jacob Bernays, que renovara a
interpretação da catarse na Poética de Aristóteles num artigo de 1857, republicado em
1880. […] Bernays fez aparecer com mais força o caráter corporal e “patológico” das
transformações emocionais […]

A arte catártica é, portanto, segundo Bernays, manifestação de patologia e tem, como
finalidade, extirpar o sofrimento. Seria sua função política a educação, equiparando-se à
didática? Talvez, para a saúde, tivesse alguma utilidade se, de fato, o conceito de utilidade
possa ser evocado aqui.
A arte, didática ou catártica, expõe o homem e, politicamente, o influencia. Não se
pode vê-la como neutra. Há de se ter uma posição crítica sobre ela, portanto. Para os gregos, a
arte tem um fim em si mesma: expressar a beleza, concebida como a grandeza e a ordem.
Talvez seja essa a definição geral de arte. Haverá outra? Como objeto cultural, a arte sofrerá,
como vem sofrendo, sob a égide de várias concepções.

E é nesse instante que se insere a discussão sobre a relação passado-futuro. Hannah
Arendt, em Entre o passado e o futuro (2011), afirma que, desde os acontecimentos mundiais
que aconteceram (e continuam acontecendo), insufladores de grande sofrimento aos homens,
houve uma perda da noção das perversidades e do mal no mundo. A ideia hodierna do
“politicamente correto” estabeleceu como verdade o pensamento de alguns, cuja discussão é
perniciosa. Reintroduziu-se o totalitarismo no mundo. Diz Celso Lafer (2011, p.10): “De fato, o
fenômeno totalitário revelou que não existem limites às deformações da natureza humana e
que a organização burocrática […], baseada no terror e na ideologia, criou novas formas de
governo e de dominação, cuja perversidade nem sequer tem grandeza [… ]”. E é por isso que
Hans Christian Andersen, em 1837, brindou o mundo com a fábula do rei nu. Se não se
observar um pouco a arte com certa criticidade, alguém irá surpreender o mundo com a
célebre frase:
“ – Vejam, o rei está nu! ”
Com base nessas reflexões, algumas considerações devem ser feitas:
1ª) qualquer ação é uma ação política. Não há, por isso, inconsequências;
2ª) a arte exerce influência sobre seus observadores. É uma ação educadora e,
portanto, política;
3ª) é preciso desmistificar a arte como liberta de qualquer ação sobre ela.
Não se pode, portanto, transformar o politicamente correto em uma ideia totalitária. A
discussão e a crítica devem valer sempre. Espera-se que, com base em critérios que levem em
consideração o Belo e o Bem, o homem possa, sim, manifestar-se sem perder de vista a
humanidade vindoura.

Referências:

ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. 7. ed. São Paulo: Perspectiva, 2011.
LAFER, Celso. Da dignidade da política: sobre Hannah Arendt. Em Entre o passado e o futuro.
7. ed. São Paulo: Perspectiva, 2011.
SANTORO, Fernando. Arte no pensamento de Aristóteles. Disponível em:
http://jayrus.art.br/Apostilas/LitLatina/arte_no_pensamento_de_aristoteles.pdf. Acesso em:
12 nov. 2017