Comprei uma bici dobrável

(Por Marcos Mantovani)

Sem mentira, eu comprei uma bici dobrável. Linda, angulosa, com para-lama. E de repente fiquei com vontade de escrever sobre ela, sobre Caxias, sobre contemporaneidade e essa alternativa de transitar com uma bicicleta.

Dizem que Caxias não tem a cultura da bike. Verdade. Só que cultura é uma palavra expansível, manejável, ou seja, a cultura pode adquirir novas práticas. E é tão bom adquirir novas práticas: faz com que as nossas ideias não fiquem restritas ao tempo do êpa.

Para mim, para minha realidade pessoal, bicicleta não é sinônimo nem de atividade física nem de recreação. É transporte mesmo. Aliás, esse é um fato que ingenuamente passa batido por quem não pedala. A bicicleta é o meio de transporte mais utilizado no mundo. Transporte que não sopra fumaça, não é espaçoso, não buzina e não é ostentatório.

Eu gosto daquele livro de capa amarela do David Byrne (vocalista do Talking Heads), o livro Diários de bicicleta. Você lerá ali considerações espertas sobre os andaimes do cicloativismo. Por exemplo, quando viaja para outro país, David Byrne sempre despacha no check-in a sua bici dobrável: o objetivo é explorar as ruas estrangeiras com o vento acariciando o rosto.

Como passo introdutório aqui em Caxias (e agora faço minha parte como residente que cobra futuro), sugiro reavaliações na geografia do nosso trânsito. Citando uma amostragem, eu interpreto que aquela rua dos bairros Nossa Senhora de Lourdes e Cruzeiro, a Luiz Michielon, aquela rua poderia fácil fácil receber uma ciclovia no lado esquerdo – me proponho a ir até a prefeitura para um café reflexivo com os encarregados de raciocinar a mobilidade urbana caxiense.

Além de para-lama, a minha bici dobrável tem bagageiro, alforje unilateral e oito marchas. Uma danada vaidosa, sedutora mesmo. Preta e azul, um azul mais claro, tipo céu em tarde de piquenique. Se por acaso um dia você me enxergar na rua com a minha menina, acredite, não estarei fazendo exercício, estarei em trânsito, atravessando. Travessia, disse Riobaldo Tatarana, o Urutu-Branco.