Em casos extremos o automático funciona mais que o racional. Mas o profissional deve
entender a sua função

Na terceira noite da Semana Acadêmica do Centro de Comunicação, quarta-feira (25), a palestra foi sobre
Gestão de Crise: Case Chapecoense. A Sala e Conferências do prédio G mais uma vez
ficou lotada de universitários para ouvir os palestrantes Fernando Mattos, diretor de
comunicação e Daniel Fasolin, assessor de imprensa da Associação Chapecoense de
Futebol.
Na madrugada do dia 29 de novembro de 2016, o avião que transportava boa parte da
delegação da Chapecoense, jornalistas e tripulantes a Medellín na Colômbia caiu,
deixando 71 mortos, apenas seis sobrevivem. A comoção se espalhou ao redor do
mundo e, por consequência, praticamente todos os veículos de comunicação passaram
a buscar informações sobre o assunto de forma direta ou indireta.
Foi para contar o que se passou por trás do que foi noticiado que a equipe de
comunicação da Chapecoense veio a Caxias do Sul, para falar como fizeram para
contornar, amenizar uma crise gigantesca e totalmente inesperada. “O que nós
vivemos em Chapecó, foi mais do que uma experiência profissional, foi uma
experiência de vida”, contou Mattos.

Telefone não parava de vibrar
Após essa breve descrição Mattos começou a falar de quando recebeu a fatídica
notícia e como desenvolveu sua função. “Eram 4h e meu telefone não parava de
vibrar, por isso resolvi atender. Me informaram que eu teria que ser forte e que eu
tinha que ficar calmo após ao notícia, pois teria que muito o que fazer. Fui direto para
a Arena Condá, juntamente comigo, os familiares já começavam a chegar. Era
assustador, pois não tínhamos informações. Depois deste dia, nunca mais fiz uma
viagem familiar. E hoje é a primeira vez que faço uma viagem sem estar 100% ligado a
Chapecoense”.
Nos dias que antecederam o sinistro, toda Chapecó estava em êxtase. E no amanhecer
do dia 29 de novembro, com uma forte chuva na cidade, a desolação era total. As 7h,
as notícias que vinham da Colômbia, era de que 20 pessoas tinham falecido. Uma hora
mais tarde, a dor que já era enorme, transcendeu a carga emocional que uma
comunidade pode aguentar, com a confirmação de 71 mortos. “Todos nós ficamos sem
chão. O prefeito e uma comitiva de oito médicos foram para Medellín para agilizar os
processos burocráticos. E em Chapecó, eu comecei a trabalhar muito mais no automático do que no racional. Não tínhamos uma ação coordenada. O gramado foi todo ocupado por veículos de comunicação”.

Profissionais próximos
Para tentar gerir uma crise como essa, Mattos ressaltou que é necessário estar
rodeado por profissionais de confiança, que se tenha uma relação próxima e aos
poucos inserir outras pessoas conforme surja demanda. Ele destacou que o período
que veio depois da tragédia e se estende até hoje, sem data para terminar, é tão
trabalhoso quanto foram aqueles dias iniciais. "Praticamente não tínhamos mais
profissionais, muitos faleceram no acidente. E tivemos que organizar um velório
coletivo em três dias, atender a imprensa, os familiares e de todos os processos
burocráticos. A imprensa queria fontes, ao mesmo tempo com que protegíamos,
tínhamos que ofertar informações. E essa busca incessante por informação estressa as
fontes que estão diretamente envolvidas com o acidente, são familiares”.

Mais de 700 ligações em menos de 24 horas
O atual assessor de imprensa da Chapecoense Daniel Fasolin, no ano passado
trabalhava em uma rádio de Chapecó, como setorista dos times adversários. Ele
relembrou que na última sexta-feira anterior à tragédia, os profissionais da imprensa
da cidade jantaram juntos e estavam muito felizes até o momento da triste notícia.
“Recebi a ligação de minha mãe, que pensava que eu poderia estar no voo. Às 4h eu
fui para a rádio. Até às 15h daquele dia, eu recebi mais de 700 ligações. E mais do que
passar informações, tinha que comunicar da maneira correta. O grande desafio foi dar
a notícia sobre o Danilo, pois havia relatos de que ele estava vivo”.
Fasolin frisou que em situações extremas, o automático funciona mais do que a razão.
Se o profissional saber qual é a sua função, vai estar preparado, do contrário é
complicado. Ele destacou ainda que lidaram também com o lado ruim do jornalismo, o
sensacionalismo.