A neutralidade da ciência: comentário dos textos de Lévy Leblon e Marcuse.
(Por Delzimar da Costa Lima)

É lícito afirmar que é um mito a neutralidade da ciência. Para defender essa ideia, lançar-se- á
mão de fragmentos dos textos de Lévy Leblon e Marcuse. O primeiro, em referência à
afirmação inicial, diz que

… dúvidas quanto à função progressista da ciência provocam outras, quanto às
motivações dos cientistas. […] (Alguns), muito frequentemente, (se refugiam) em
uma ética do conhecimento como valor em si, onde a ciência se converta em seu
próprio objetivo.
[…] A atividade científica, como qualquer outra, não é separável do conjunto do
sistema social em que se pratica. (LÉVY LEBLOND, apud SEVERO, M. F. 2017, p.34)

O segundo, a respeito do mesmo tema, faz a seguinte afirmação:

… não existem dois mundos: o mundo da ciência e o mundo da política (a sua ética),
o reino da teoria e o reino da prática impura – existe apenas um mundo no qual a
ciência, a política e a ética, a teoria e a prática estão inerentemente ligadas (ID. p.
39)

Para Lévy Leblon, há desconfiança sobre a função progressista da ciência, isto é, da sua função
de avanço mundial em termos tecnológicos e/ou até humanos. Há alguns cientistas que se
refugiam no valor da ciência por ela mesma. No entanto. a ciência não pode se distanciar das
responsabilidades do fazer científico, porque ela, como qualquer outra atividade, produz
consequências boas ou más para a sociedade ou para o homem/indivíduo.
Para Marcuse, a ciência não se diferencia do mundo da política assim como não existe
diferença entre a teoria e a prática, ou seja, existe apenas um mundo que se constitui de todos
estes: da ciência, da política e da ética, da teoria e da prática. Ora, se a ciência não se distancia
dos demais, então, como esses, ela é responsável pelo que faz e, eticamente/socialmente, não
é e não pode ser neutra.
Associando os dois pensamentos, ainda que pesem os exageros de um em relação ao do outro,
não há como negar que ambos enveredam pelo caminho da não neutralidade da ciência. A
neutralidade da ciência é, portanto, um mito.
Em relação, especialmente, a Lévy Leblon, o fato de o cientista receber um prêmio pelo seu
trabalho não pode torná-lo ‘culpado’ pelas insanidades dos homens no trato dos outros
homens. Como uma atividade exitosa, merece ser recompensada. A satisfação por isso não
menospreza aquele que recebeu a recompensa. Quanto ao resultado do trabalho, e dos seus
naturais riscos, o princípio da precaução deve orientá-lo e, para isso, os Conselhos de Ética
supervisionam e o acompanham, muitas vezes, não permitindo a continuidade da pesquisa ou
a publicidade e a aplicação dos seus resultados.
Referência:
LÉVY-LEBLOND, J, M. Sobre a neutralidade científica.[on line] Les Temps Modernes, n. 288. jul.
70.
MARCUSE, H. A responsabilidade da ciência. [on line] Scientiae Studia, São Paulo, v. 7, n. 1,
2009.

SEVERO, M. F. O mito da neutralidade da ciência; Desafios éticos da ciência contemporânea.
Apostila. São Paulo: Universidade Estácio de Sá, 2017